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Autor baiano evoca escravidão em livro-fenômeno da pandemia

 


Apesar da linguagem simples e direta, há um certo não dito em “Torto Arado” que faz toda a diferença na narrativa. É aos poucos que o leitor vai conhecendo as entranhas das protagonistas, as irmãs Bibiana e Belonísia.

Logo no começo, cena forte, uma delas perde um pedaço da língua: sequência cheia de significado para a história. Ferrugem e sangue se confundem no trauma que o acontecimento leva às irmãs: a partir daí, elas estarão mais conectadas do que nunca, já que uma será a voz perdida da outra, a partir da interpretação do mais discreto gesto ou olhar. É mais ou menos isso que o livro faz com o leitor, convocando-o a dar significado a coisas simples, em meio à imensidão da vida.

“Torto Arado” é um acontecimento. Melhor romance brasileiro dos últimos tempos, assinado pelo baiano Itamar Vieira Junior, ele só não excede o boom dos livros do britânico George Orwell (1903-1950) na pandemia. Está há semanas no topo da lista de mais vendidos da Amazon.

E é bom frisar: com uma literatura genuinamente brasileira. O autor adentra tão racionalmente a identidade do povo que mais parece fazer sucesso nos tempos de seus colegas regionalistas Graciliano Ramos (1892-1953) e Rachel de Queiroz (1910-2003).

Ambientada em um Brasil profundo, em que a comida é minguada, o acesso à terra é negado e decifrar as letras é o mais perto de ler, a família das protagonistas sobrevive a recém-nascidos que não vingaram e a épocas em que a fome vai acompanhando o pouco que se consegue tirar do arado.

Mesmo assim faíscas de amizade e de amor brotam quando o eu se faz mais importante do que a tragédia coletiva. Razão também da importância de religiões africanas para as famílias que lutam dia após dia para não morrer de fome. Nesse ínterim, viver faz parte da diáspora que iniciou com a escravidão e nunca desde então teve fim.

Os capítulos se sucedem na mesma medida em que mudam de narrador, dando ao leitor não só diversos pontos de vista daquela realidade, mas também uma profundidade diferente a cada momento do enredo. Se no começo parece que faltam palavras e restam sentimentos às protagonistas, conforme as personagens se tornam letradas o tom se torna mais fluido. Porém não menos pesado.

Sensação semelhante o autor provoca ao evocar ancestrais para revelar o simbolismo da construção daquela família, ora mítico, ora selvagem, todavia sempre sofrido, sobretudo para as figuras femininas da trama. A certa altura, dá-se conta de que a única recordação coletiva é a da diáspora constante. Daí o significado tamanho do manejo com a terra: algo que é tão negado quanto brutalmente vital.

Outra característica da obra que contribui para envolver o leitor é a falta de referências temporais, ao menos no começo. Como se, página após página, fosse carregado pela mão pelas poucas informações que tem: entre elas, a falta total de benesses como luz elétrica e água encanada. Basta saber, para não estragar a epifania do livro, que tudo se desenrola nas primeiras décadas do século 20, quando a herança escravocrata era ainda mais vívida.

“Torto Arado” foi lançado no Brasil em 2019, pouco depois de ganhar uma edição em Portugal, mas só virou um sucesso mesmo no final do ano passado. Pode ter a ver com o fato de Vieira Junior ter sido congratulado com o Prêmio Jabuti e com o Prêmio Oceanos. Pode ser também que tenha chegado a hora dele.

 Folhapress

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