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Com trégua em ataques, Bolsonaro tenta reduzir resistência a Mendonça no Senado


 Pesquisas que apontaram o governo Jair Bolsonaro (sem partido) em seu pior momento e dificuldades esperadas na tramitação do nome de André Mendonça no Senado fizeram o presidente recuar das ameaças disparadas na semana passada e a adotar um figurino definido por ele de "Jairzinho paz e amor".

De acordo com interlocutores, o tom mais moderado de Bolsonaro na segunda-feira (12), quando conversou longamente com jornalistas na saída do STF (Supremo Tribunal Federal), é consequência de dois fatores políticos recentes.

O primeiro é o aumento da pressão de aliados diante de pesquisas de opinião que colocam em dúvida as chances de vitória do mandatário em 2022. Em segundo, está a necessidade de melhorar o ambiente com o Senado, ao menos durante a análise da indicação de Mendonça para o Supremo.

Nesta terça-feira (13), Bolsonaro oficializou a designação de Mendonça, hoje ministro da AGU (Advocacia-Geral da União), como sucessor de Marco Aurélio Mello no STF. O ministro se aposentou na segunda.

Para ser confirmado no posto, Mendonça ainda precisa do aval do Senado. No entanto, ele enfrenta resistência entre congressistas, principalmente por seu histórico como ministro da Justiça.

À frente da pasta, Mendonça recorreu à LSN (Lei de Segurança Nacional) para investigar críticos do presidente.

Em conversas recentes, aliados avisaram Bolsonaro que a retórica explosiva da semana passada —com xingamentos a ministro do Supremo e ameaças contra o processo democrático brasileiro— ajudou a criar um cenário de ainda mais obstáculos para Mendonça.

De acordo com dois senadores governistas, o que deveria ser um processo sem sobressaltos no Congresso se converteu, no caso de Mendonça, em algo que deve demandar um concentrado esforço político.

Um auxiliar de Bolsonaro afirmou que a iniciativa de apelar por moderação do chefe foi conjunta porque a postura estava aumentando as dificuldades do governo em várias frentes.Nesse sentido, Bolsonaro foi aconselhado a tentar baixar o tom com o Legislativo e o Judiciário.

A escalada das tensões, disseram aliados, pode criar um ambiente no Senado em que a rejeição a Mendonça seja vista por congressistas como o sinal político necessário para barrar as manifestações autoritárias de Bolsonaro.

Mendonça tem intensificado as reuniões com senadores para tentar vencer as objeções que enfrenta. Nesta terça, fez nova rodada de encontros.

A versão "Jairzinho paz e amor" foi apresentada ao público na segunda, quando Bolsonaro concedeu uma entrevista coletiva após se encontrar com o presidente do STF, ministro Luiz Fux.

Na ocasião, o presidente baixou o tom nas ameaças de não realizar eleições em 2022 caso não seja introduzida a modalidade do voto impresso.

A ameaça mais clara ocorreu em 8 de julho. "Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições", disse. Em outra ocasião, Bolsonaro disse que a fraude eleitoral está no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Mas, após a reunião com Fux, Bolsonaro contemporizou. "O não tem eleição é porque vai ser algo fraudado, eleição existe quando as coisas são sérias", disse.

Em seguida, num outro passo atrás, Bolsonaro afirmou que, caso não haja um sistema impresso de votação, passará a "bater na tecla da contagem pública dos votos". Ele não explicou o que seria essa contagem, uma vez que a apuração feita pelo TSE é amplamente divulgada.

Além da trégua nas declarações, Bolsonaro vai se reunir nesta quarta (14), às 11 horas, com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) e Fux.

O encontro será no STF. Na segunda, Fux disse que a reunião terá por objetivo fixar "balizas sólidas para a democracia brasileira, tendo em vista a estabilidade do nosso regime político".

Nesta terça, o vice-presidente, Hamilton Mourão, defendeu a iniciativa de diálogo entre os Poderes. "Acho que é bom que sentem e conversem, baixem a bola e baixem o tom, que é o melhor para nação como um todo", disse.

Mourão disse que hoje a disputa política está muito acirrada, citou a CPI da Covid e disse que as pressões são grandes. "​Não estou aqui para ser crítico do presidente, mas as críticas que a gente recebe são extremamente exacerbadas."

Por isso, segundo ele, é importante o encontro. "É interessante que todo mundo converse de maneira civilizada."

As ameaças autoritárias de Bolsonaro da semana passada geraram reações da cúpula do TSE e de Pacheco. O presidente do Senado disse que todo aquele que tente algum retrocesso ao Estado democrático de Direito será apontado "como inimigo da nação".

A manifestação de Pacheco também foi uma resposta à nota do Ministério da Defesa contra o presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD-AM).

Apesar da moderação de discurso, mesmo aliados de Bolsonaro estão céticos quanto à duração do novo comportamento presidencial.

Eles lembram que o presidente é imprevisível e tradicionalmente adota a prática de mobilizar sua base mais fiel e ideológica nos momentos de crise. Além do mais, no passado outros ensaios conciliatórios de Bolsonaro foram seguidos de radicalização.

Além da necessidade de pavimentar a aprovação de Mendonça, Bolsonaro tem sido pressionado por aliados políticos a baixar a temperatura da crise no país.

Nesta terça, em cerimônia no Palácio do Planalto, Bolsonaro fez aceno a Pacheco e a Lira. "Nosso relacionamento com Pacheco e Lira é excepcional", afirmou o presidente.

Por trás da apreensão de congressistas próximos ao Planalto, estão as pesquisas de opinião que apontam amplo favoritismo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a consolidação de uma imagem negativa do governo entre os entrevistados pelo Datafolha.

A reprovação a Bolsonaro, por exemplo, subiu e atingiu 51%, o maior índice nos 13 levantamentos feitos pelo instituto desde que o presidente assumiu o governo, em 2019.

Outro dado do Datafolha mostrou que Lula lidera nos dois cenários de primeiro turno apresentados para o eleitor e em todas as simulações de disputa de segundo turno —naquela em que enfrenta Bolsonaro, ganha por 58% a 31%.

Aliados da ala pragmática têm argumentado que o presidente precisa centrar seu discurso em obras e inaugurações do governo federal e evitar ofensas aos demais Poderes.

Também pedem que ele se vacine contra a Covid e dê ampla publicidade ao ato, para tentar se desfazer da imagem de um líder anticiência e que é contrário à imunização.

Classificação Indicativa: Livre  


Por: Marcelo Casall Jr/ Agência Brasil 

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