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Indústrias tentam sobreviver diante da queda acentuada no consumo durante pandemia e desestímulo à produção

 


A base da indústria tem mudado ao longo dos últimos anos na Bahia, com o fechamento da Fafen, da Dow Nordeste, Braskem e Tigre. Em 2020, a pandemia do novo coronavírus acentuou o problema, gerando uma queda ainda maior na produtividade e no consumo. Para piorar a situação, os baianos foram surpreendidos com o anúncio do fim das atividades da Ford logo no início de 2021.

A maior parte das indústrias acima citadas operava com tecnologia ultrapassada e baixa escala de produção. No entanto, com a Ford a situação era diferente, já que tinha tecnologia de ponta e uma fábrica nova. 

Segundo o superintendente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), o economista Vladson Menezes, uma decisão empresarial de mudança no foco de produção para automóveis de maior valor foi determinante para o fechamento da montadora em Camaçari. 

A Ford gerava em torno de 12 mil empregos diretos, sendo 5 mil na fábrica e o restante nas empresas sistemistas (que fornecem, por exemplo, freio, suspensão) e prestadores de serviços. Além disso, movimentava milhões na economia de Camaçari. Sua saída deixou uma situação bastante difícil e preocupante para os trabalhadores, os comerciantes, o município e a Bahia.

Menezes lembra que a participação do segmento de fabricação de veículos automotores na indústria da Bahia era de cerca de 5,4% do total do valor de transformação da indústria, o que representou em números aproximados cerca de 0,54% do PIB do estado em 2018 – últimos dados oficiais disponíveis. 

“Com base nesses dados e em uma avaliação preliminar, a Federação das Indústrias do Estado da Bahia estimou o impacto no PIB considerando que há impactos diretos, indiretos e os causados pelo efeito-renda [...] A FIEB estima que o impacto negativo do fechamento da Ford no PIB do estado seja ordem de 1,3% em 2021, o que deve reduzir o ritmo da recuperação da economia baiana neste ano”, projetou o economista.

Ele explica que a forma ideal de amenizar um impacto dessa magnitude seria a atração de uma nova empresa automotiva, ocupando toda estrutura deixada pela Ford e que aproveitasse inclusive empresas de autopeças aqui instaladas.

A Pesquisa Industrial Mensal do IBGE mostrou que a produção física da indústria de transformação baiana caiu 5,2% em 2020. "Foi um ano marcado em um primeiro momento por reduções ou mesmo paralisações na produção [devido principalmente à pandemia] e, no segundo semestre, por restrições na oferta e encarecimento dos insumos e matérias-primas industriais", contextualizou Menezes. 

Ele ilustra que essa queda na produção foi influenciada pelos resultados dos segmentos: veículos automotores (-41,6%), metalurgia (-30,4%), couro e calçados (-21,5%), equipamentos de informática (-18,9%), borracha e plástico (-10,1%) e minerais não metálicos (-3,7%). Alguns segmentos, por sua vez, registraram um desempenho positivo, como o refino (13,7%), a química (4,1%), o alimentício (1,7%) e os de papel e celulose (7,5%). A produção de bebidas também cresceu (2,8%). Esses segmentos não conseguiram, entretanto, reverter o quadro geral.

Problema antigo

O secretário de Administração de Camaçari, Helder Almeida, cita que a indústria no geral já vinha tendo uma queda de produtividade há bastante tempo. Em 2020, a redução foi de 15% e, quando a pandemia chegou, a situação se agravou ainda mais pois o consumo diminuiu. 

“O problema no nosso estado é o consumo, como em todo o país. A sociedade brasileira tem perdido renda em função da crise econômica e isso faz com que consuma menos. Como consequência, o comércio diminui suas encomendas, já que está vendendo menos, e a indústria diminui a produção. Não temos problemas de insumos. As indústrias estão tendo problemas porque a produtividade e a lucratividade estão caindo. Quem não tem capital para se manter, fecha. A pandemia acelerou ainda mais esse desgaste”, analisou o secretário.

Almeida cita que a pandemia atingiu ainda setores como o de serviços, gerando um enorme passivo social: desemprego, dívidas, população sem conseguir se alimentar direito, redução na qualidade de vida, entre outras perdas.

O Polo de Camaçari

O secretário conta que Camaçari sempre teve sua economia sustentada pelo Polo Petroquímico, que também ajudou a alavancar o estado baiano. O ICMS recolhido é utilizado pelo governo para atender diversos municípios. Depois veio o Polo automotivo. 

Quando a Ford chegou, abriu uma nova cadeia produtiva, dando oportunidade às empresas sistemistas, que, por sua vez, necessitaram de pessoal, fardamento, alimentação... O mercado local foi todo “irrigado” com fornecedores e prestadores de serviços e isso desenvolveu o segmento. Além da Ford, Camaçari recebeu também a Continental e a Bridgestone. 

Somente a folha salarial da Ford era de R$ 500 milhões por mês. O Polo de Camaçari agora está abalado, desanimado, sofrendo com a concorrência internacional. Almeida ressalta que a China tem um custo de produção baixo porque a mão de obra é muito barata, o que também deixa o produto mais acessível. 

“Não é à toa que as grandes fábricas estão lá. A China consegue ter competitividade de preço nos produtos. A Bahia, então, precisa buscar os incentivos governamentais pra ter competitividade. O Brasil está passando por uma crise de saúde que interfere diretamente na produtividade e, além disso, precisa enfrentar essa concorrência internacional. Então, deve ajustar o custo”, apontou.

O secretário diz que os incentivos fiscais fazem com que o estado possa competir no mercado. A Bahia já tem infraestrutura industrial, sistema de tratamento de efluentes e uma malha rodoviária interessante, em sua opinião. Esses fatores barateiam a implantação das fábricas. Além disso, o porto fica próximo e é um estado muito bem localizado. 

“Mais do que isso, é preciso incentivos ficais para equacionar os custos de produção. O governo de Camaçari está criando uma lei para que tenhamos um ambiente propício para a atração de indústrias, oferecendo infraestrutura, terrenos subsidiados, para que venham construir suas fábricas, incentivos como ISS ou IPTU. O objetivo maior é a geração de empregos. Precisamos absorver a mão de obra deixada pela obra para que a economia funcione novamente”, esclareceu.

O superintendente da FIEB afirma que o movimento de redução da participação industrial na economia é mundial, mas a intensidade desse movimento no Brasil tem sido substancial. Na avaliação dele, o país trilhou o caminho do desestímulo à produção, especialmente a industrial, pois foram criadas diversas leis, regulamentações e impostos “que penalizam a produção e desestimulam o empreendedor”. 

“Por outro lado, o cenário de elevadíssimas taxas de juros incentivava os investimentos financeiros, o capital especulativo. A consequência foi um paulatino enfraquecimento do parque industrial nacional e o crescimento das importações de produtos e serviços. A economia brasileira está cada vez mais primarizada, dependente da produção mineral e agrícola. A título ilustrativo, o setor industrial contribuía com 27,4% do PIB nacional em 2010, passando a 21,8% em 2018 (último dado disponível – Contas Nacionais do IBGE). Aqui na Bahia, a Indústria representava 27,1% do nosso PIB em 2010, passando a apenas 21,5% em 2018, num curto período de tempo de 8 anos”, comparou Menezes.

Investimento vai ter que retornar

O vice-governador e secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, João Leão, informa que a Ford recebeu incentivos fiscais do governo do estado em três oportunidades: R$ 351 milhões em 2018, R$ 368 milhões em 2019 e R$ 229 milhões em 2020. Como o contrato era que a companhia deveria ficar em Camaçari pelo menos até 2025, a Bahia não quer ficar no prejuízo e tentará reaver parte do investimento.

Leão frisa que o governo pretende receber a planta da Ford para discutir com uma nova fabricante. A montadora também recebeu do estado uma área de instalação no porto, onde exportava seus veículos, e isso também será solicitado de volta.

O vice-governador relata que esteve ao lado do governador Rui Costa nas embaixadas da Índia, Coreia e China em busca de empresas que queiram se instalar no lugar da Ford. Por falar em novas indústrias, Leão comemora a atração de fábricas para o estado.

“Estamos montando um polo sucroalcooleiro na margem do Rio São Francisco, serão 11 unidades industriais que irão gerar 4 mil empregos diretos. Assinamos um protocolo de intenção com a Bevap Bioenergia para a implantação da empresa no Médio São Francisco, que vai gerar 7 mil empregos diretos. Uma empresa de Minas Gerais vai implantar mais uma usina em Barra, que irá gerar entre 4 a 5 mil empregos. O Grupo Paranhos está implantando a primeira usina em Muquém do São Francisco e criará 4 mil empregos”, elencou o vice-governador. 

Em Camaçari, chegaram duas empresas que vão gerar 1.500 novos empregos. “A situação não está boa porque perdemos a Ford, mas não podemos baixar a cabeça e estamos procurando novas indústrias para absorver a mão de obra que foi deixada pela Ford”, finalizou Leão.

O superintendente da FIEB reforça que a Bahia atualmente registra a maior atração de indústrias ligadas à geração de energia elétrica, como a eólica e a solar, e isso é extremamente relevante. “A título ilustrativo, os investimentos registrados em protocolos de intenções para novos empreendimentos no ano de 2020 somaram R$ 33,3 bilhões, dos quais quase 90% desse montante foram de empresas ligadas a geração de eletricidade. A energia limpa é, reconhecidamente, um caminho para o futuro”, acrescentou Menezes.

Márcia Guimarães

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