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A história da maternidade de Salvador acusada de tráfico de bebês na década de 80


 Marli dos Santos, enfermeira do Pronto Atendimento Médico e Cirúrgico (Pamec), no bairro da Caixa D’água, em Salvador, não podia ser conivente com aquela prática. Se aceitasse o pedido do médico plantonista de prenome André estaria indo contra seus princípios morais e fundamentais para a conduta profissional que exercia. Jamais enterraria com as próprias mãos os corpos dos recém-nascidos que apodreciam em uma geladeira doméstica de 300 litros instalada nos fundos da unidade médica, responsável, na década de 80, por realizar até 600 partos por mês.

Ao não ceder à pressão sofrida nos corredores, não apenas do médico plantonista, mas de quem estava sentado no topo da hierarquia, a profissional elevou o tom e ameaçou denunciar o procedimento fúnebre. Foi o que bastou para receber uma bofetada do colega de plantão e uma sequência de pontapés. A partir daquele momento, a enfermeira se tornaria o fio do novelo de um enredo que preencheu páginas e páginas de jornais da Bahia e de todo o Brasil ficando conhecido nos anais policiais como o caso da “Fábrica de Anjinhos”.

Em abril de 1986, os soteropolitanos esqueceriam as notícias do conjunto de medidas econômicas do Plano Cruzado e as manchetes dos prejuízos causados por alagamentos daquele mês chuvoso, para acompanhar o caso envolvendo uma das principais maternidades da cidade, que passava a ser acusada de ocultar pequenos cadáveres, alimentar o tráfico internacional de crianças para fins de adoção ilegal e contribuir para rede de venda de órgãos. Da Pamec saíram depoimentos desencontrados de funcionários que alegavam que pouco sabiam sobre os crimes, de responsáveis pelo espaço que nada tinham a dizer diante das autoridades e o pior: dezenas de mães sem seus filhos.

Cobertura dos principais jornais de Salvador no dia seguinte a descoberta dos fetos (Foto: Reprodução/Tribuna e Correio)

Denúncia

No dia seguinte à agressão física, Marli decidiu procurar uma unidade de polícia responsável pela área onde a maternidade estava localizada. Queria prestar uma queixa não apenas pelo pedido absurdo feito no último plantão pelo superior da ala médica em que trabalhava, mas pela dor física e psicológica que acabara de sofrer. Foi até à 2º Circunscrição Policial, na Rua Adelino Santos, no bairro da Liberdade, para narrar à experiente delegada Valquíria Barbosa o episódio que lhe rendeu hematomas e o comunicado de desligamento do quadro de funcionários. 

Hoje, com 78 anos, Valquíria, peça-chave para entender aquele crime, já não cumpre mais o papel de delegada. Com recorrentes lapsos de memória, pouco lembra do episódio que marcou a sua carreira — não mais que um outro que lhe rendeu sérias retaliações. Após sucessivos contatos telefônicos com a reportagem, a delegada aposentada tentou narrar com detalhes o que viu quando ultrapassou a lavanderia da maternidade em direção ao quintal onde estavam escondidas as ossadas. Com suas raras e pouco confiáveis recordações, sintetizou: “Me perdoe, eu não ando bem da memória, mas lembro que me deparei com um verdadeiro açougue de bebês”.

Guiada pelo depoimento acusatório da enfermeira, a delegada Valquíria chegou ao número 88 da Rua Saldanha Marinho, ao lado de quatro policiais, entre eles dois investigadores, os mais experientes da 2º delegacia. Acompanharam a sua equipe, naquele fim de tarde do dia 8 de abril, um grupo do Corpo de Bombeiros, um médico legista e funcionários do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IML).

Cientes do peso das acusações e das provas que podiam ser descobertas, os funcionários da maternidade fizeram de tudo para dificultar as buscas. Perguntas sem respostas ou respostas evasivas. Uma tática que cada colaborador usava para passar adiante a responsabilidade da ocultação dos pequenos cadáveres. A quantidade de fardados e carros estacionados em frente à maternidade chamou atenção dos moradores da rua, que se reuniram ao redor da Pamec para acompanhar a inspeção. Alguns sem saber do que se tratava; outros querendo uma resposta para aquele mal cheiro que, durante semanas, intrigou a vizinhança.

Delegada chega ao local do crime com sua equipe (Foto: Correio/Autor não identificado)

As autoridades precisaram correr contra o tempo para conseguir exumar os corpos antes do anoitecer. Em depoimento, a enfermeira, além de denunciar que fora obrigada a enterrar a leva de bebês, revelou também que a prática era comum e de consentimento de parte dos funcionários. Marli não soube, no entanto, precisar onde os pequenos foram enterrados, o que dificultou ainda mais as buscas da equipe policial que tinha diante de si um terreno de 100 metros quadrados tomado por uma alta vegetação.

Envolvidos

Já entardecia quando a delegada percebeu que só uma pessoa poderia ajudar naquela busca: Jorge Fernando, uma espécie de “faz-tudo” da Pamec, um homem de meia-idade e com relativa popularidade na vizinhança. Ele já havia sido citado no depoimento da enfermeira como o responsável pela ocultação dos corpos, ao lado de um outro funcionário, o office boy Carlos da Silva.

A polícia colocou Jorge contra a parede porque acreditava que ele poderia se render à pressão, pois, naquele momento, todos tentavam sair pela tangente. A princípio, o funcionário recuou, talvez por medo de represália dos chefes, ou simplesmente por não colocar na balança a gravidade daqueles procedimentos. Em um depoimento dado à delegada ainda no local do crime, o colaborador afirmou que apenas obedecia ordens da chefia e que achava prudente não questioná-las.

Caminhando pelo terreno, Jorge tentou mostrar à força-tarefa os dois pontos onde ele havia enterrado duas levas de corpos, mas não conseguiu lembrar com exatidão onde foram abertas as cavidades. Sabia, contudo, quando os corpos foram ocultados. A primeira cova, segundo ele, foi aberta em dezembro de 1985, já a segunda, um mês antes da denúncia da enfermeira, no dia 10 de março.

“Os trabalhos foram difíceis porque o funcionário do hospital, Jorge, não se lembrava do local exato onde os fetos foram enterrados. Entretanto, os policiais munidos de pás, enxadas e picaretas, começaram a remover o capinzal que cobria a terra e foram removendo as sepulturas improvisadas”, diz um trecho da matéria publicada pelo Correio.

Revelação

Com a chegada da noite a revelação: aos poucos, sacos plásticos de lixo de cor azul, que serviam de invólucros, começaram a ser removidos debaixo da terra próximo à uma parede que protegia um tubo de oxigênio. Alguns cadáveres em avançado estado de putrefação ainda conservavam em seus braços etiquetas improvisadas feitas de fita adesiva onde era possível identificar letras borradas pelo efeito do tempo. Peritos deduziram ser os nomes das mães. As buscas, que começaram às 15h, foram encerradas às 21h, e o saldo foi a descoberta de 22 pequenos corpos.

“Em um dado momento, o sargento Brás mandou que conduzisse o trabalho com cuidado pois surgia algo da terra. Às 19h15, foi desenterrado um saco plástico azul, contendo em seu interior uma série de outros sacos de tamanhos variados, os quais foram postos em solo plano e ali examinados pelo médico legista”, diz parte do relatório de exumação emitido após a descoberta do crime.

Peritos encontram ossadas de 22 bebês no quintal da maternidade (Foto: Correio/Autor desconhecido)

O cansaço da equipe e a pouca luminosidade não permitiu continuar as buscas, além do mais, a delegada achou por bem interrogar os responsáveis pela maternidade antes de iniciar uma nova exumação no dia seguinte. “Esta será uma maneira de pegar um relato mais fiel, antes dos culpados receberem orientações e represália de superiores”, disse Valquíria ao Tribuna da Bahia.

A titular da 2º delegacia queria, com brevidade, que o diretor administrativo Cornélio e a diretora técnica Maria Araújo, comparecessem à Liberdade para saber o que eles tinham a dizer sobre as acusações que recaíam sobre a maternidade e o principal: a finalidade de ocultar os corpos. Os advogados que representavam a Pamec trataram de acalmar a autoridade assegurando que os dois estariam em sua sala no dia seguinte.

Sob o pretexto de estar cumprindo agenda administrativa na cidade de Juazeiro, norte da Bahia, Cornélio não depôs. Já Maria, grávida de alguns meses, teve um “mal estar” após a repercussão do fato. Internada, não deu sua versão. Eles seriam ouvidos dias depois e negariam todas as acusações.

O trabalho dos policiais e peritos se encerraram na segunda escavação feita no dia seguinte, quando foi possível localizar pequenos fragmentos de ossos. Jorge confirmou à polícia que os fragmentos eram da primeira remessa, mas não soube dizer a quantidade de fetos que deu fim em dezembro do ano anterior. Em depoimento à polícia, ele afirmou que nessa data retirou os corpos da geladeira, mas que o office boy Carlos ficou responsável pela ocultação, já que teve náuseas devido ao mau cheiro que saía do eletrodoméstico. No primeiro dia da exumação, o estômago de Jorge voltou a embrulhar assim que ele avistou os primeiros corpos brotando da terra. Ao se afastar da equipe policial, apoiando-se no muro, vomitou.

Perito recolhendo fragmentos de ossos no quintal da maternidade (Foto: Walter Mota/ Tribuna da Bahia)

No dia seguinte à descoberta do cemitério clandestino, os jornais se esgotaram nas bancas e todos se reuniram ao redor dos televisores e rádios para acompanhar o caso. “Uma cena macabra como as imaginadas por Hitchcock em seus livros e filmes. Vinte e dois bebês, alguns natimortos, já em estado avançado de decomposição, foram desenterrados ontem em um matagal atrás da Clínica Pamec”, escreveu um repórter. O telefone da delegacia não parou de tocar durante toda semana. Eram mães queixando-se de que os filhos, nascidos aparentemente saudáveis, foram dados como mortos dias depois do nascimento.

O desespero de uma mãe

Várias outras pessoas também relataram pessoalmente à delegada as traumáticas experiências que tiveram ao passar pela unidade médica. Ao final da semana, a delegada tinha em mãos 15 depoimentos. Mas um desses havia sido colhido um ano antes do crime ganhar manchete. Um desabafo desesperado de uma mãe, a princípio ignorado pela falta de provas. Era a técnica em enfermagem Auxiliadora Capistrano de Souza.

Auxiliadora estava em sua quarta gravidez quando chegou à Pamec no dia 5 de abril de 1985 sentindo contrações. Estava tranquila, já que havia sido acompanhada por uma pediatra da casa. Seria um parto normal, sem maiores complicações como fora dos outros três. O bebê era um garoto, muito esperado, o Alex. A pediatra com quem tinha cultivado confiança estava de plantão. Um alívio. Mas não demorou muito para a mãe perceber que algo estava errado. O parto normal virou uma cesariana de última hora, sem muitas explicações.

“Resolveram fazer uma cesárea, mas não sei o motivo. Me disseram que o parto estava demorando. Na época, eu era auxiliar de enfermagem e sabia que para fazer uma cesárea não precisava de uma anestesia geral. Eu fui sedada e quando eu acordei querendo ver o bebê disseram que ele estava na incubadora”, conta.
 
Após o parto, a médica chegou na sala onde a paciente descansava ainda sob os efeitos dos sedativos. Ela trazia uma notícia nada animadora. O bebê, que veio ao mundo às 16h35 do dia 6, estava, segundo ela, com dispneia — problema pulmonar ou cardíaco que compromete a respiração. Os dois não poderiam se ver pelos próximos dias, já que o pequeno estava em isolamento.

O tempo passava e, do leito onde se recuperava, Auxiliadora via outras mães deixando a maternidade com seus filhos, mas ela continuava distante do seu. Aquela situação estava ficando insustentável. Era preciso tê-lo ao seu lado, ou ao menos, mesmo que distante, ver pela primeira vez os traços do pequeno.

No dia 9, veio a alta médica e a esperança de poder levar Alex para casa, mas um funcionário lhe pediu para que perdesse as esperanças. Segundo ele, o bebê tinha piorado e, talvez, nada mais pudesse ser feito para salvá-lo. O berço que esperava o caçula, no município de Camaçari, Região Metropolitana de Salvador (RMS), onde a família residia, continuou vazio, assim como o coração da mãe que deixou no leito da maternidade um pedaço seu, que nunca pôde ser juntado.

“No dia seguinte, depois da alta médica, meu marido foi até à maternidade e lá ficou sabendo que o nosso filho tinha morrido. Sem muitas explicações, pediram para que ele assinasse um documento autorizando o sepultamento do corpo, pago pela própria Pamec, o que eu achei muito estranho”, narra Auxiliadora.

Auxiliadora acredita que o seu filho está vivo (Foto: Arcevo pessoal)

Mas nada daquilo convenceu a mãe. Algo dizia que o garoto ainda estava vivo e que era preciso fazer alguma coisa para trazê-lo para junto dos seus outros três filhos. O instinto materno falou mais alto do que qualquer palavra de conforto pela suposta morte precoce do caçula.

Recuperada da cesariana, mas não do anúncio da morte do filho, Auxiliadora decidiu sozinha ir em busca de informações. Em casa, ninguém acreditava na teoria de que a criança ainda estava neste plano, viva, e precisando de cuidados. Por vezes, foi taxada de “louca” por pessoas mais próximas. Deveria seguir a vida e esquecer a morte de Alex, diziam, já que outras três crianças careciam de atenção. Mas ela só estaria convencida do contrário caso provas concretas atestassem a morte, o que jamais aconteceu.

Era preciso, pensou, iniciar uma peregrinação para ter uma resposta convincente, mas, para isso, teve de abrir mão da rotina, que incluía deixar o emprego como técnica de enfermagem. Foram dezenas de idas à maternidade e ao IML, sempre a contragosto dos familiares. Ela também esteve na 2º delegacia, mas não foi compreendida.

“Eu sentia que algo estava muito errado, algo dentro de mim dizia isso. Eu fui até à delegacia dar uma queixa, mas acharam que eu estava com depressão pós-parto. Fui diversas vezes ao IML e os funcionários me apresentavam relatórios, tentavam me convencer da morte dele, mas tudo era muito estranho. Vi muitos documentos da Pamec rasurados”, conta a mãe.

Auxiliadora já não aguentava mais aquela rotina. Além de não se contentar com as versões apresentadas, precisou, também, enfrentar alguns familiares que acharam por bem enviá-la ao sanatório, dado o seu estado emocional fragilizado. Escapou do internamento compulsório e pôs de lado uma parte da sua história, ainda incompleta.

Grupo de mães

“Boa tarde, Clara, minha sogra, nos anos 80, teve um filho nessa maternidade. Há todos os sinais de que essa criança tenha sido traficada. Me adiciona. Esperança e fé!”, comentou um internauta, em março de 2020, em uma publicação sobre o mapa do tráfico de crianças para fim de adoções ilegais, compartilhado no grupo do Facebook “Vítimas da Pamec na década de 80”.

Clara, em questão, é a pedagoga Claristela de Almeida, a administradora da página que reúne mais de 500 membros, entre eles mães que passaram pela Pamec, voluntários que ajudam encontrar familiares de pessoas desaparecidas, homens e mulheres que foram adotados de forma ilegal na década de 80. Ela também é uma vítima da maternidade e com a ajuda do grupo, criado em 2013, construiu uma linha de alcance às outras histórias.

Durante esse tempo, devorou os acervos públicos e criou uma espécie de “dossiê” sobre o caso. São dezenas de recortes de jornais, cópias dos depoimentos originais das mães, dos suspeitos e até de inquéritos abertos para apurar as denúncias. Ela tem a intenção de desvendar o mistério envolvendo o suposto desaparecimento do seu terceiro filho, um garoto nascido em 1985, dois dias após o fim do oitavo mês de gestação, às 11h30, no horário de verão daquele ano.

Até o momento, não conseguiu nenhuma pista sobre o paradeiro do bebê, hoje, se vivo, um homem feito. Recentemente, realizou um teste de mapeamento genético que possibilita a busca de pessoas que compartilham os mesmos traços de DNA ao redor do mundo, mas não encontrou ninguém com alta compatibilidade.

Parto

Clara estava em casa quando sentiu as primeiras contrações. Após o primeiro indicativo de trabalho de parto, ligou para o médico que a acompanhou durante a gravidez na Pamec. O combinado era de que, assim que confirmada a hora do parto, ele estaria lá para fazer todos os procedimentos.Seis horas depois de dar à luz, o neonatologista informou que a criança precisava de cuidados especiais. O laudo foi o mesmo que Auxiliadora recebeu do filho: uma dispneia. Mas, diferente da técnica de enfermagem, que sequer teve a chance de ver o caçula, a criança foi apresentada à pedagoga. Chorou e procurou pelo seio da mãe.

Clara achou o filho bonito, de peito forte, apesar do baixo peso. O caçula nasceu pesando 2,2 kg e medindo 49 cm. Mas o laço entre os dois foi rapidamente desfeito e a criança levada para uma outra sala onde supostamente permaneceu em uma incubadora.

Após um tempo distantes, a mãe convenceu as enfermeiras, a muito custo, a deixá-la ir até à sala onde o filho se recuperava da insuficiência respiratória. Lá, o susto: a criança era diferente daquela colocada em seu seio. Depois disso, foi sedada e não lembra de quase nada do que aconteceu durante o tempo que passou sob os efeitos dos medicamentos. Três dias depois de dar entrada na maternidade para dar à luz ao filho, Clara deixou o local sem ele.

O marido chegou à Pamec após o anúncio da alta médica da pedagoga. Antes de partirem para casa, ele foi até à sala onde o bebê deveria estar recebendo os cuidados, mas uma enfermeira o avisou sobre a morte do filho e sobre o envio do corpo à geladeira mortuária. Ele assinou documentos autorizando o uso do corpo do pequenos para "estudos médicos". O pai ficou sem saber como contar para esposa sobre a partida precoce do caçula. Tratou, então, de providenciar medicamentos e de cercar a mulher de atenção antes do anúncio, feito horas depois na residência do casal.

Mesmo recém-parida e abalada com a suposta morte do filho, Clara voltou à maternidade horas depois ao lado do companheiro. Ela fazia questão de que o corpo fosse enviado ao IML para o diagnóstico da causa que levou à morte do seu bebê. Na chegada à maternidade, foi apresentado aos pais uma declaração de óbito. O pai deu-se por satisfeito, mas a mãe, não. A pedagoga queria levar a apuração adiante, o marido, por medo de uma suposta represália que o casal pudesse sofrer, convenceu a esposa do contrário. Nada mais souberam sobre o bebê.

Hoje, Clara ajuda a unir famílias por meio do seu trabalho voluntário no Facebook, mas não consegue preencher a lacuna existente em sua própria família. Vivo ou morto, ela precisa de uma resposta. “É um vazio que dá no peito da gente porque não tivemos o corpo para enterrar (…) Eu fico pensando: ‘será que sou uma desgraçada? Consigo ajudar a encontrar os filhos dos outros, mas o meu eu não consigo. Dá uma frustração muito grande. Eu queria ter o prazer de encontrar meu filho antes de morrer”, diz a mãe.

Final
 
A Fábrica de Anjinhos é um livro de capítulos rasurados. Um crime sobretudo de incertezas. Incertezas que rondam a vida das mães que nunca enterraram seus filhos e que acreditam, com a força do instinto materno, que eles foram enviados para fora do país para compensar a frustração de casais estéreis. Essa hipótese foi alimentada após o depoimento de uma enfermeira da Pamec que confirmou que participou de um processo ilegal de adoção de um bebê. Marinalva Sena confirmou à delegada que conseguiu um termo de responsabilidade de adoção assinado por uma suposta paciente que rejeitara a filha ainda no leito. O bebê foi doado para um tio da funcionária, identificado como Jurandir dos Santos.

Mas há também outro capítulo tão sombrio quanto o caso do cemitério clandestino e que abalou igualmente a sociedade soteropolitana criando mais alarde e reforçando a tese de adoção ilegal sustentada pelas mães. Na mesma semana em que o cemitério clandestino foi descoberto, a Polícia Federal chegou ao endereço de uma assistente social, funcionária do extinto Banco do Estado da Bahia (Baneb). Ela foi acusada de comprar bebês de mães paupérrimas, falsificar documentos e enviar recém-nascidos para os Estados Unidos e Itália por até U$ 10 mil.

A assistente social, de acordo com a denúncia, pagava uma quantia em dinheiro para mães em vulnerabilidade social com a promessa de que as crianças seriam enviadas para famílias ricas. Em seu apartamento, em Pituaçu, os recém-nascidos eram cuidados até ela conseguir uma outra mulher, uma espécie de laranja, para registrá-las como filhos e, posteriormente, autorizarem as adoções.

Os trâmites ilegais geralmente eram feitos em cartórios do interior com o consentimento de juízes e funcionários que também integravam o esquema. A PF calculou que, entre janeiro de 1984 a dezembro de 1986, 460 crianças brasileiras foram enviadas para o exterior em processos de adoção ilegal. Com ela, a PF encontrou 10 bebês, todos vendidos para famílias estrangeiras que se preparavam para desembarcar no Brasil e levá-los embora.

A delegada Valquíria, a princípio, não descartou a hipótese de que os bebês encontrados no apartamento em Pituaçu teriam nascidos na Pamec, mas no decorrer das investigações não foi possível levantar provas suficientes para concluir a hipótese. Em depoimento, os responsáveis pela maternidade também negaram veementemente ter qualquer tipo de ligação com a assistente social.

Matéria sobre a assistente social acusada de traficar bebês baianos para o interior (Foto: Reprodução/ Tribuna da Bahia)

Houve também uma denúncia de uma suposta compra de órgãos. Um policial militar afirmou à autoridade que recebeu uma proposta em dinheiro para autorizar a realização de um transplante de parte do fígado de seu filho recém-nascido. Ele não aceitou. O fato não foi comprovado pela polícia e ficou apenas registrado em uma das várias folhas que fazem parte do inquérito.

Outro fator que causou estranheza na investigação era o fato da maternidade assumir parte dos trâmites funerários ou pedir autorização da família para que os corpos das crianças fossem usados para estudos científicos, em nome da ciência e para o bem de outros bebês que pudessem, futuramente, padecer do mesmo mal. Geralmente pais com pouca escolaridade e condições financeiras eram convocados até à Pamec, enquanto as mães ainda se recuperavam do parto em casa ou no leito da unidade de saúde. Em uma sala reservada, era dada a informação de que os recém-nascidos haviam morrido e que todo o custo do sepultamento seria arcado pela direção, mas sem a presença da família.

Assim, os familiares, abalados com a morte, não poderiam se preocupar com os detalhes da cerimônia fúnebre. Sem muitas delongas, a papelada era assinada sem que os homens se preocupassem em ler as cláusulas que lhes eram apresentadas. O mesmo funcionava quando a equipe tentava convencê-los a doarem os corpos para estudos. Muitos pais, após não aceitarem as duas propostas, iam até o IML para a liberação dos corpos dos seus filhos, mas, na maioria das vezes, não os encontravam. Iniciava-se então o jogo de empurra e, logo, a desistência dos pais por uma resposta. 

Somaram-se a essas acusações, relatos de violência obstétrica, falsificação de documentos, falta de higiene e esterilização. O caso foi encerrado na 2º delegacia com o indiciamento do diretor administrativo e da diretora técnica, mas o Ministério Público arquivou o inquérito tempos depois. Ninguém foi parar atrás das grades, mas Auxiliadora, Claristela e outro punhado de mães continuam presas, naquela década, naquele berçário e na ausência de uma resposta.

“O meu instinto de mãe me faz acreditar que ele está vivo, meu filho está vivo, eu tenho toda a certeza, como dois e dois são quatro. Creio que antes de morrer vou encontrá-lo”, acredita Auxiliadora.Nilson Marinho


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