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Documentário destrincha filme experimental de Glauber Rocha na Itália


 Muito se fala sobre os filmes dirigidos por Glauber Rocha de 1964, ano de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, a 1969, quando foi lançado “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. Nesse período, ele também realizou “Terra em Transe”, de 1966, e curtas antológicos como “Maranhão 66”.

No entanto, poucos veem e discutem os filmes produzidos na década de 1970, especialmente os longas
dirigidos no exterior. “Cabeças Cortadas”, de 1970, foi filmado na Espanha; “O Leão de Sete Cabeças”, também de 1970, na República do Congo; e “Claro”, de 1975, na Itália.

Talvez o motivo dessa desatenção (ou distanciamento) do público e mesmo da crítica seja a entrega de Glauber nessa época a uma linguagem cada vez mais experimental.

Certamente seria mais cômodo para ele, um nome já consagrado, se manter na toada dos filmes que tinham o sertão como pano de fundo, mas a arte para o diretor sempre implicou uma reinvenção constante, obsessiva até.

É bem-vindo, portanto, “Glauber, Claro”, filme dirigido por César Meneghetti sobre a experiência italiana do cineasta. O documentário está na Mostra Internacional de São Paulo e entra no canal Curta! em dezembro.

Em “Claro”, Glauber retratou Roma como um epicentro do imperialismo, uma supremacia do passado que ecoa no presente. Para isso, intercalou cenas de ficção, registros documentais e performances com a francesa Juliet Berto, que havia feito “A Chinesa”, de Godard, uma década antes. “Quero fazer uma visão brasileira de Roma, ou melhor, um testemunho do colonizado na terra da colonização”, disse àquela altura.

Nesse “filme militante muito estranho”, nas palavras de um crítico italiano, Glauber vai pela primeira vez para a frente das câmeras numa produção assinada por ele.

Segundo o documentarista, “Claro” causou estranhamento entre os europeus em meados dos anos 1970 porque o radicalismo de Glauber estava um passo além do cinema de vanguarda do continente.

Brasileiro com a maior parte da carreira na Europa, especialmente na Itália, Meneghetti estudou no Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma, onde conviveu com pessoas próximas de Glauber, como o montador Roberto Perpignani, que colaborou na edição de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

Depois, Meneghetti trabalhou como assistente de direção e em outras funções na Cinecittà e conheceu outros amigos que Glauber cultivou em Roma, o que aumentou seu interesse na vida e na obra do diretor baiano na Itália.

“Ao viver muitos anos longe do Brasil, trabalhando com cinema e videoarte, acabei me identificando com o Glauber. Ele tinha um discurso altivo”, diz Meneghetti, que dirigiu filmes como “Motoboy”, de 2004.

Na preparação do documentário, Meneghetti e sua equipe reuniram em Roma boa parte dos atores de “Claro”, como o argentino Luiz Maria Olmedo, conhecido como El Cachorro, e a belga Bettina Best.

O elenco lembra Glauber como um cineasta tão inquieto quanto afetuoso, um artista que se adaptou bem a uma vida romana libertária do ponto de vista da cultura e do comportamento.

O documentário também mostra trechos de uma entrevista antiga de Berto em que fala sobre “Claro”. Naquele momento, a atriz era a grande paixão de Glauber.

Há depoimentos dos italianos Marco Bellocchio (diretor) e Adriano Aprá (crítico), que comentam o filme de Glauber e a riqueza da produção cultural em Roma na década de 1970.

Diferentemente de “Claro”, filme fragmentado e delirante (existe cópia de qualidade razoável no YouTube), o documentário é didático ao apresentar o contexto em que Glauber criou seu penúltimo longa. De lá pra cá, a Itália e o Brasil mudaram muito, mas, como indica Meneghetti, a obra de Glauber se mantém forte e surpreendente.  / Por: Folhapress

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