Polícia Rodoviária vai prender líderes grevistas

Governo diz que fez tudo o que podia na mesa de negociações
Oito dias após o início da greve dos caminhoneiros, o governo do presidente Michel Temer deu as negociações com a categoria por encerradas – a avaliação é de que a pauta de reivindicações dos trabalhadores foi contemplada.  A partir de agora, a Polícia Federal deverá realizar operações em vários Estados para efetivar, com imagens, prisões de líderes da greve que insistirem em manter o bloqueio ao livre trânsito de mercadorias. Ministros do presidente disseram ontem que não cabem mais negociações.
As informações que chegam ao governo é que a motivação para a permanência do protesto é política: desgastar o governo e insuflar o discurso dos que pregam intervenção militar, ou fortalecer determinados candidatos à Presidência da República. Ontem, José da Fonseca, presidente da Associação Brasileira do Caminhoneiro (Abcam) reconheceu que os pleitos da categoria foram atendidos. Segundo ele, a continuidade dos atos nas estradas brasileiras atenderia interesses de “intervencionistas” – grupos que defendem uma intervenção militar no País. 
“Não é o caminhoneiro mais que está fazendo greve. Tem um grupo muito forte de intervencionistas aí e eu vi isso aqui em Brasília, e eles estão prendendo caminhão em tudo que é lugar”, declarou. “São pessoas que querem derrubar o governo. Não tenho nada a ver com essas pessoas nem os nossos caminhoneiros autônomos têm. Mas estão sendo usados para isso”, afirmou.
O diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal, Renato Dias, disse ontem que há caminhoneiros coagidos por “falsas lideranças” fora do setor de transporte e que policiais podem efetuar a prisão em flagrante de quem tentar “ameaçar a ordem” e impedir motoristas que quiserem retomar as atividades. Segundo Dias, o comando nacional da PRF tem orientado às polícias regionais que se desloquem para os pontos onde ainda há aglomeração de caminhoneiros. 
Ele evitou, no entanto, afirmar quais seriam essas lideranças e diz que os casos estão sendo levantados pelo serviço de inteligência da PRF. De acordo com Dias, a orientação é que policiais garantam escolta a todos os motoristas que queiram retomar as atividades após o acordo firmado com o governo.
“Se for flagrado algum manifestante ou algum falso líder a ameaçar ou perturbar a ordem, ou seja, se associar em alguma associação criminosa, a PRF vai fazer imediatamente a prisão em flagrante desse infrator”, diz. Até o momento, porém, ainda não houve registro dessas prisões, afirma. Ao todo, já foram aplicados R$ 3 milhões em multas, diz.
O ministro da Defesa, Joaquim Silva e Luna, evitou dar um prazo para que o abastecimento seja regularizado. Mas ressaltou que falaria da "parte cheia do copo".
"Avançamos e muito. Não há bloqueio em ponto nenhum das estradas. Aeroportos estão funcionando. Alguns na sua plenitude, outros com restrição", disse.

Infiltrados
O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou ontem que há “infiltrados” na paralisação dos caminhoneiros com interesses políticos que atrapalham a retomada das atividades “Temos informações que alguns ali não são caminhoneiros e se infiltraram no movimento com objetivo político. Nós estamos cuidando desse assunto para que a infiltração não afete a retomada imediata da atividade”, disse Padilha.
O ministro da Casa Civil afirmou que o governo quer “separar” esses grupos para liberar as estradas.
O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen, afirmou que o abastecimento está sendo “normalizado” em alguns estados, mas esse processo leva tempo e as informações sobre as medidas tomadas pelo governo precisam chegar às ruas.

Temer
Na posse do ministro Ronaldo Fonseca (Secretaria-Geral), o presidente Michel Temer disse que “se Deus quiser” a crise gerada pela paralisação dos caminhoneiros terminará logo. O presidente disse ainda que foi criticado por não ter usado a força logo no início dos atos da categoria. “Nós não fazemos assim. Não é nossa vocação, a nossa vocação é do acerto, do diálogo, da conciliação, do ajuste, que é o que fizemos ao longo desta semana”, afirmou.
Apesar da declaração do ministro Eliseu Padilha (Casa Civil), na manhã de ontem, de que as reivindicações dos caminhoneiros foram atendidas e as negociações se esgotaram, ainda havia veículos parados ou bloqueando estradas.
O anúncio de redução no preço do diesel e criação de um preço mínimo para o frete, feito pessoalmente pelo presidente Temer, não foi suficiente para desmobilizar a paralisação.

Movimento disperso
Desde a última quinta-feira (24) quando anunciou as primeiras medidas para tentar dar um fim à greve dos caminhoneiros, o governo federal espera a desmobilização da categoria nas estradas do país. Ontem, no entanto, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) confirmou que ainda há ao menos 594 pontos de bloqueios em todo o Brasil. Em entrevista, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, reconheceu que não há uma previsão para o fim da paralisação e atribuiu a dificuldade de dar essa previsão ao fato de que não há uma liderança única do movimento.
"Não existe uma liderança uniforme desse movimento, são vários líderes. Ouvimos vários desses líderes e, do que ouvimos, elaboramos essa pauta que nós entendemos que atende aos pleitos dos caminheiros e fomos ao máximo do que o governo poderia ceder", disse.
Apesar disso, ele disse que a expectativa é que as propostas anunciadas surtam efeito. O governo esperava que ainda ontem o movimento começasse a ser desmobilizado, o que aconteceu em poucos trechos.
Questionado se o governo cedeu à pressão de caminhoneiros, Marun disse que as medidas atendem a "um pleito da sociedade" e que está confiante que as novas propostas vão resolver a paralisação. "O que nos dá certeza, a partir de conversas que fizemos com diversas lideranças, é que estamos atendendo a reivindicação das categorias", afirmou.
Em nota, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) informou que "considera que os caminhoneiros foram muito bem atendidos" e pediu o retorno às atividades. "O bloqueio de caminhões de propriedade das transportadoras é ilegal e pede força policial para que os veículos das empresas voltem a circular normalmente", completou o comunicado.
Já a União Nacional dos Caminhoneiros (Unicam), por meio do presidente José Araújo Silva, também conhecido como China, disse que “muitos caminhoneiros não sabem o que está acontecendo” (sobre comunicado de acordo). “Continuam parados por falta de comunicação. Mas agora não tem como prosseguir a greve. Vão prorrogar o aumento para 60 dias, o que já é uma grande vantagem. Agora precisa bater com o governo outras metas", afirmou China ao G1.
A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) deixou a cargo das bases sindicais decidirem pela manutenção ou não da paralisação. A confederação orientou, no entanto, que os manifestantes que mantiverem a mobilização liberem a circulação de itens como combustíveis, merenda escolar, produtos e alimentos destinados a saúde pública e hospitais, leite e caminhões identificados com adesivo da Defesa Civil.
"A CNTA pede conscientização de todos os caminhoneiros para que avaliem com cuidado suas decisões sobre a continuidade ou não da paralisação, sob pena de perdermos essas conquistas históricas da categoria", disse a confederação, em comunicado.  (*Correios24hrs)